A Cegueira Branca de Saramago

Já comentei em diversos posts que sou uma leitora compulsiva, destas que lê mais de um livro por vez. Mas preciso confessar uma coisa: nunca li um livro de José Saramago. Ou pelo menos não me lembro de ter lido. Também não sou de assistir filmes feitos a partir de livros e me sentir satisfeita a opinar sobre a obra. Não fiz isso nem com Harry Potter! Fiquei fascinada com o bruxinho nas telas e logo tive quer ler toda coleção. Os últimos filmes nem assisti porque os livros sempre foram muito melhores. E lá se vai uma lista de livros/filmes nesta mesma condição. Mas com Saramago foi diferente. Em uma disciplina do curso de Psicologia, certa noite, a professora chegou com o filme “Ensaio sobre a Cegueira” e me deixou desconfortável (no bom sentido, se é que isso é possível) com a profundidade da mensagem. É claro que o filme é extremamente denso e preciso ser assistido com olhos de reflexão. Mas vamos tentar “aliviar” um pouco todo esse papo e tentar explicar o que eu quis dizer até aqui.
Para quem nunca leu o livro ou assistiu o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, num primeiro momento ele parece mais se tratar de uma ficção científica onde a humanidade é assolada por uma espécie de vírus desconhecido que causa uma cegueira branca. As pessoas vão sendo contagiadas e são reclusas na tentativa de conter a epidemia. Daí em diante a história se passa em um núcleo composto por menos de dez pessoas que estão enclausuradas, sendo que uma delas enxerga (mulher do médico), mas mentiu que estava cega para não ser separada do marido. E é observando o que se passa com essas pessoas no decorrer da história que se percebe até onde um ser humano pode ou não ir para garantir a sua sobrevivência e a de quem ele quer proteger. O que antes era importante deixa de ser para dar lugar as necessidades essenciais. De onde surgem as forças para enfrentar seus medos e seus pudores?
Saramago mostra que ao “rebaixar” a espécie humana novamente ao nível primário da busca pura e simples pela sobrevivência e não mais pela disputa de poder e riqueza, nos transforma novamente em animais. As casas não tem mais dono, a comida precisa ser conquistada. Repare que a única pessoa que não perdeu a visão foi aquela que sempre teve bom coração. E é só depois de perder tudo, não materialmente falando, mas sim moralmente, que os seres humanos começam sua reconstrução e aos poucos voltam a ver.
E é justamente assim que eu sinto que o mundo está atualmente, imerso em uma cegueira branca. Mas ela ainda é muito branda, ineficiente. A de Saramago foi voraz e não poupou praticamente ninguém, com exceção da mulher do médico. A nossa atual cegueira branca, tem feito muito mais vítimas inocentes do que seus algozes. O que dizer de Alepo ou de Isamara (ex-mulher do atirador da chacina de Campinas) que já havia prestado cinco queixas contra ele até que na noite de réveillon Sidnei a matou junto com seu filho de 8 anos e mais 10 familiares. Quando crianças são exterminadas por uma guerra sem sentido ou são mortas friamente por seus próprios pais, será que já não é chegada a hora da cegueira branca?
É claro que eu não desejo que passemos por isso. É lógico que o caminho do amor sempre é a melhor escolha. Mas também é óbvio que precisamos ter a consciência que essa responsabilidade está em cada um de nós. Sim, a responsabilidade é nossa. Ela está nas nossas atitudes, no nosso jeito de agir, na gentileza que não somos capazes de fazer, no muito obrigado que não damos, no bom dia que guardamos, no por favor que poupamos. Em compensação, contribuímos para construção de usinas de fumaça branca com aquele buzinaço no trânsito parado, o lixo arremessado pela janela do carro, gente nova sentada em lugar preferencial no busão...
Seria muito complexo se cada um de nós cuidasse melhor da sua parte? A proposta não é implementar grandes projetos, mas sim “cuidar do seu quadrado”, ou como diria Madre Teresa de Calcutá “Quer fazer algo para promover a paz mundial? Vá para casa e ame sua família.”. Ame sua família, brinque com seus filhos, respeite seus pais. Ajude quem precisar genuinamente da sua ajuda, acolha. Tenha Respeito. Seja Gentil. Seja Grato.
Feliz 2017!

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