Quem "ixtá lá"?
Que saudade dá de atender o telefone e ouvir, seguida daquele “brado retumbante” de múltiplos ôôôôôô´s, a frase típica dele: “quem ixtá lá?”. Afinal, pra quê dizer alô quando se atende o telefone, quando se pode ter um jeito todo particular como esse? Mas esse era só dele. Só ele sabia fingir aquele sotaque português, que mais parecia um carioca fingindo ser português (mas isso eu nunca disse pra ele), pra perguntar quem estava do outro lado da linha. Sendo que na verdade a intensão nem era essa. A intensão era sempre deixar tudo mais leve, nem que fosse o simples fato de atender um telefone. Assim era ele. Só ele era assim. Afinal, quem mais conversava durante horas com algum desconhecido que que ligou para o seu número por engano? E, pra quem se lembra da época da lista telefônica, sabe o horror que era ter que procurar alguma coisa naquela “enciclopédia”. Mas não pra ele. Na verdade acho até que ele gostava de ter algo pra procurar naquela “bíblia”. Ele tinha até uma pequena coleção de listas telefônicas (1988, 1989, 1990...). Pilhas de lista telefônica. Sem falar nos mapas, onde ele traçava suas rotas pela cidade. GPS é para os fracos! Ele dominava a rota dos mapas da lista telefônica (#sóquenão). Para ser sincera ele não conhecia quase nada da cidade, e muito menos fora dela. No trânsito era um desastre. Mas me ensinou que tendo senso de direção a gente “se vira”. Também me ensinou a não ter medo de barata, nem de escuro, nem acreditar em qualquer bobagem que eu ouvisse por ai. Nunca tive medo de barata e nem de escuro. Mas passei a vida acreditando em um bando de bobagens que ouvia por todo lado. Talvez a maior delas tenha sido a que ele mesmo me contou: ele sempre disse eu sou forte. E o mais engraçado é que por muito tempo eu acreditei nisso. Mas agora...bastou ele não estar mais aqui pra eu descobrir tudo: a força nunca esteve em mim. A força só existe quando existe um por quê. E no dia em que ele se foi, eu não sentia o chão sob os meus pés, o mundo girava no automático, e nada mais importava. Eu me sentia sem um por quê. Eu era o mais fraco dos seres. Desde aquele dia constantemente me pego sentindo essa fraqueza na alma, que só não é pior do que a certeza de que nunca mais vou ouvir aquele “quem ixtá lá?” ao atender o telefone.
Força minha pequena... estamos juntos pro que der e vier... conta comigo
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