Como nossos pais...
Costumamos ouvir pais e mães dizendo que se matam trabalhando para dar aos filhos as oportunidades que não tiveram. É aí que me pego pensando até que ponto isso virou "lugar comum", ou melhor, quase uma auto justificativa para as rotinas absurdas de trabalho a que nos submetemos, ou por acreditamos que é nosso único meio de sustento, ou por sermos adictos das nossas carreiras profissionais. É claro que é preciso estar preparado para ter melhores chances, mas o que me intriga é que não sabemos para o que devemos prepara-los. Será que já paramos para pensar nisso ou simplesmente estamos "seguindo a boiada"?
Num mundo globalizado é preciso saber inglês. Ok, acredito fortemente que sim, pois isso amplia nosso acesso ao mundo. Mas é fundamental? Na minha opinião não. Então, se não começarmos a aprender inglês no jardim da infância, poderemos sobreviver? Acredito que sim. Mas, se não tivermos tempo para brincar ou simplesmente ficar sem fazer nada, durante o jardim da infância, nosso desenvolvimento será um tanto quanto comprometido. Até porque, atualmente, com a facilidade de acesso às informações de toda natureza, o aprendizado de outros idiomas, praticamente depende da nossa vontade ou necessidade , já o ócio é praticamente inatingível, depois que estamos léguas do tal jardim da infância.
Aqui estou repetidamente falando em jardim da infância, mas o que eu quero realmente dizer é que durante a primeira etapa da vida, estamos mais susceptíveis à ansiedade dos nossos pais do que as nossas reais necessidades. Quando nos tornamos pais, repetimos esse mesmo ciclo com nossos filhos, e assim sucessivamente, geração pós geração. Concordo que precisamos preparar nossas crianças para vida. Mas para vida delas e não para a vida que nos ensinaram que deve ser a vida a ser seguida como padrão (normal). Eu sei que não temos bola de cristal para saber se eles se tornarão médicos, cantores, arquitetos, camelôs, ou seja lá o que for. Então, diante disso, devemos prepara-los para enfrentar as lutas e os tropeços, as vitórias e as derrotas. Nossas crianças precisam ter uma estrutura psicológica para receber as demandas da vida, processa-las da melhor forma possível, e continuar suas jornadas munidas dessas experiências.
Dia após dia assistimos milhares de pessoas, das mais diversas áreas, serem acometidas por transtornos de fundo psicológico. A depressão vem se transformando numa das doenças mais debilitantes e causadores de afastamentos do trabalho. Dificilmente encontramos profissionais, considerados bem sucedidos, que não façam uso de uma série de medicamentos para equilibrar sua psique. Agora me respondam: para ganhar a vida é preciso perde-la? Será mesmo que devemos ser alfabetizados em duas línguas ou podemos começar a vida brincando? Afinal brincar nada mais é do que uma espécie de treino, um estímulo para nosso cérebro em desenvolvimento. Adultos deveriam brincar.
Com certeza esse assunto é muito controverso, e cada um tem sua opinião, suas crenças, seus exemplos de vida... e essa é a graça da diversidade humana (se todos gostassem do verde o que seria do amarelo?). Mas cabe ao menos a discussão sobre a adultalização infantil. Assim como a maioria de nós seguiu a fórmula pronta por medo do desconhecido, e aí eu me encaixo perfeitamente, talvez estejamos expondo nossas crianças à esse ciclo de medo. É evidente que não fazemos (conscientemente) por mal, mas e se ao menos tentássemos não desencoraja-los em suas vontades. Se pudéssemos tentar trilhar um caminho do meio, onde parte das atividades viessem de nossas crenças e outra visse das necessidades deles? Seria trabalhoso, pois precisaríamos conhecer nossos filhos, e, para a maioria de nós, que não conhece nem a si mesmo, seria trabalho dobrado. Talvez quem topasse mergulhar nessa jornada, corra o risco de nunca mais ser o mesmo pai, a mesma mãe, a mesma pessoa, o mesmo profissional... Isso aconteceu comigo e aos quarenta anos a vida tem sido incrível. Mas não existem garantias. Como dizem os Titãs "a cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração".
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