#ALetraDasPessoas
Dia
desses, numa conversa com meu filho de doze anos, ele me contou que um de seus amigos estuda em uma escola onde o tradicional caderno
praticamente foi extinto. Os alunos utilizam o tablete ou o notebook em sala de
aula. Confesso que, do alto dos meus quarenta anos, fiquei pasma com a
informação. Ok, sei que em algum lugares, especialmente nos EUA, a escrita
cursiva (ou à mão), já foi abolida, tendo sido substituída pela digitação
direta. Não que eu seja uma pessoa retrograda, ou contrária às novidades
hightech, afinal até mesmo nos aplicativos de comunicação está cada vez mais
comum o envio de mensagem de voz ao invés de mensagens escritas (digitadas),
mas em minha mente se instalou de imediato uma preocupação: "e quando
essas crianças irão usar a caligrafia?".
Comecei
então a questionar a validade da minha preocupação. Será que estou operando com
sistema ultrapassado? Talvez tenha sido essa a reação das pessoas quando surgiu
a primeira máquina de datilografar. A inovação assusta à princípio. Mas de qualquer
forma, sendo culpa ou não, da minha data de nascimento não tão recente, onde
ficaria o charme dos cadernos ou cartas escritas à mão?
Uma breve história da evolução da escrita
O
desenvolvimento da escrita se deu de diferentes formas em cada região do
planeta, e foi através dela que o ser humano alcançou uma maneira de registrar
suas ideias e de se comunicar. Por meio da escrita, a história pôde ser
transmitida através das gerações.
No
tempo das cavernas, as pinturas rupestres (desenhos simbólicos de animais,
pessoas ou objetos) pretendiam expressar mensagens. Elas evoluíram para a
escrita cuneiforme por volta de 3000 a.C., na antiga Mesopotâmia com os
sumérios. Sendo essa uma forma pictográfica de escrita, isto é, representação
de desenhos em forma de cunha, através de cerca de 2000 símbolos escritos da
direta para esquerda, tendo sido utilizados durante três mil anos no Oriente
Médio.
Não
se sabe exatamente quando, mas, com base na escrita cuneiforme, foram
elaborados os hieróglifos (escrita egípcia). Nesse tipo de escrita, bastante
complexa e utilizada para representações religiosas, os sinais assumiram vezes
de letras, ou palavras inteiras.
Já
a escrita chinesa, datada de 1200 a.C. e resistente até os dias atuais, por ser
de alta complexidade, requerer habilidade e equilíbrio mental, por isso é
considerada uma arte.
Mas
foram os fenícios que promoveram a representação fonética que deu origem aos 22
símbolos que posteriormente tiveram adicionadas as vogais pelos gregos, que
excluíram algumas letras cujos sons não eram representativos à sua
cultura, chegando assim aos 24 sinais que compunham o alfabeto.
Por
muito tempo o domínio da leitura e da escrita ficou restrito aos monges, mas no
século XV surgiu a invenção que revolucionaria a história da civilização
ocidental: a imprensa, ou melhor, da impressão (bem como o papel trazido da
China). Com isso nasceu a escrita mecânica, permitindo a reprodução quase
ilimitada de letras sempre idênticas. O surgimento da tipografia móvel fez com
que a produção de livros se multiplicasse, facilitando assim o acesso aos
mesmos.
No
século XVIII apareceram as primeiras máquinas de escrever. Já no século XX, a
imprensa começa a usar quantidades cada vez maiores de papel e, desta forma,
houve uma democratização em escala global. Atualmente vemos a escrita digital
tomando cada vez mais espaço no nosso dia-a-dia.
As
placas de barro perderam lugar para os pergaminhos, assim como estes cederam
lugar ao papiro que por sua vez abriu caminho para o papel. Se seguirmos essa
lógica, as telas dos tablets, celulares, notebooks, um dia substituirão o
papel. Mas qual seria afinal a implicação disso nas nossas vidas?
A caligrafia como
exercício cerebral
Pesquisadores
afirmam que a escrita à mão não é apenas uma atividade motora, mas que ela
também ativa diversas áreas cerebrais. No artigo "Handwriting in early
childhood education: Current research and future implications", algo como
"Escrita na educação infantil: pesquisa atual e implicações futuras" na
tradução direta, publicado
no The Journal of Early Childhood Literacy, a professora de educação infantil
Laura Dinehart, da Universidade Internacional da Flórida, discutiu a relação
entre a boa caligrafia e o desempenho acadêmico de crianças na educação
fundamental. O estudo apresentado no artigo mostrou que crianças que
apresentavam boa caligrafia, obtinham melhores notas porque seus trabalhos eram
mais satisfatórios aos olhos dos professores, enquanto que os alunos que tinham
dificuldade na escrita poderiam achar que estavam perdendo tempo escrevendo,
prejudicando assim o conteúdo.
Virgínia
Berninger, professora de psicologia educacional da Universidade de Washington e
principal autora do estudo, diz que essa e outras pesquisas sugerem
que "escrever à mão – formando letras – envolve a mente, e isso pode ajudar
as crianças a prestar atenção à linguagem escrita". Ela afirma que
"quando escrevemos à mão usamos partes motoras do nosso cérebro, como o
planejamento motor e o controle motor. Mas muito mais importante é a região do
órgão onde o visual e a linguagem se unem, os giros fusiformes, onde os
estímulos visuais realmente se tornam letras e palavras escritas. As pessoas
precisam ver as letras com os olhos da mente".
O
que também preocupa na utilização dos computadores em sala de aula é o fato da
atenção dos alunos estarem vagando pela menor exigência em comparação com a
escrita cursiva.
A emoção ligada a grafia das palavras
Em
tempos de smartphones com aplicativos de troca de mensagens comumente usados
até mesmo por crianças em alfabetização, é difícil "defender" o valor
de cartas e bilhetes escritos à mão. O que dizer dos cartões de aniversário,
como ao menos a assinatura dos amigos. Alguém ainda carrega um caderninho de
notas (exceto eu, kkk)?
"Escrever
também pode fazer bem à saúde e ajuda a lidar com as próprias emoções", é
o que diz um estudo feito pela Universidade de Kansas, nos EUA, que acompanhou
durante três meses, 180 mulheres que estavam em estágio inicial do câncer de
mama. O resultado surpreendeu: quem transmitiu seus sentimentos para o papel
teve metade dos problemas físicos relacionados ao tratamento da doença.
E
os benefícios da escrita não param por aí segundo o psicólogo Julio Peres
"escrever é uma maneira eficaz de superar situações difíceis, a partir do
momento que a pessoa manifesta suas angústias e sofrimentos. Assim como as
crianças, adultos traumatizados precisam atribuir significados às experiências
dolorosas, para conseguirem explicar o que ocorreu. À medida que buscamos
palavras para descrever alguma situação, conseguimos reestruturar o trauma,
processar os sentimentos envolvidos na história e, finalmente, superá-la. E
isso tem um natural impacto positivo na saúde", explica. Escrever é
conhecer melhor a si mesmo. Ao colocar os sentimentos no papel podemos observar
e reconhecer as projeções do nosso eu, ampliando o aprendizado sobre nós
mesmos. Ou seja, por meio das palavras traduzimos o que pensamos e mostramos o
reflexo do que somos", avalia.
A letra das pessoas nas redes sociais
A
algum tempo surgiu no Instagram a hashtag #aletradaspessoas, um movimento que
teve início em 2012, a partir de uma publicação no Twitter da ilustradora
carioca Clarinha Gomes, que ao ver a imagem de uma lista de compras escrita à mão
comentou o quanto adorava ver #aletradaspessoas. A partir daí seus amigos começaram
a postar fotos com suas letras e a iniciativa se espalhou pelas redes sociais.
As
pessoas que não tinham nada muito criativo para escrever foram incentivadas as
escrever a frase “uma coisa que a gente não conhece mais: a letra das pessoas”,
junto à hashtag.
Movimentos
como esse, simples, espontâneos e criativos, motivam e tornam, muitas vezes,
algo que já estava esquecido e até démodé (como a expressão démodé), algo cool.
O
inconteste é que a transmissão da informação escrita, seja ela através da letra
cursiva ou digital, continuará acontecendo (oxalá), mas, a emoção envolvida
nessa ação sempre será diferente quando se mecaniza o ato da escrita.
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