Queria ter arriscado mais...

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"Epitáfio" (substantivo masculino): do grego antigo, e que significa, literalmente, 'sobre o túmulo'. É um texto inscrito em lápides e placas que buscam homenagear o defunto. Normalmente é redigido em versos, mas há exceções.
 
Você já deve ter escutado alguma vez a música do grupo Titãs, chamada "Epitáfio". Senão, ou se não se lembra da letra, por favor, preste atenção aos versos abaixo:
 
"Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...
 
...Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor.."
 
Não te parece estranho que em momento algum, a música que fala sobre os grandes arrependimentos da vida, não faça menção à experiências como: ter tido uma vida de luxos, ter dirigido os melhores carros, ter usado as mais caras joias, ter provocados mais inveja no Facebook,  ter comprado um jatinho, ter alcançado os mais altos níveis gerenciais, ter governado a cidade, o Estado, o país ou, quem sabe, o mundo todo? Afinal, somos ensinados desde crianças, que ter sucesso na vida é conseguir bons empregos, galgar indeterminadamente níveis superiores, receber altos salários e bonificações, sermos reconhecidos e premiados por isso, e consequentemente vivermos uma vida de alto padrão (as melhores casas, carros e o que mais puder ser ostentado). Mas então, porque a tal música sugere que no epitáfio, que segundo a definição do dicionário é algo escrito no túmulo do indivíduo, fazendo referência à vida do mesmo, só cita arrependimentos de cunho emocional, ou melhor, aqueles que não foram experenciados em vida?
 
A alguns anos, uma enfermeira australiana que cuidava de pacientes em seus últimos meses de vida, escreveu um livro, onde foram citados os cinco principais arrependimentos no fim da vida. Essa pesquisa foi replicada por uma médica geriatra brasileira, dra. Ana Claudia Quintana, especializada em ajudar pacientes terminais a "aprender" a morrer. Curiosamente (ou não), os maiores  arrependimentos das pessoas nestas condições foram os mesmos. Abaixo segue a lista deles:

1 - Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu queira, e não a vida que os outros esperavam que eu vivesse;

2 - Eu gostaria de não ter trabalhado tanto;

3 - Eu queria ter tido coragem de expressar meus sentimentos;

4 - Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos;

5 - Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz ("rir de verdade").

O que te parece? Eles também se esqueceram das mansões, carrões, poder? Acredito que elas nem pensaram nisso. Mas e qual o porquê dessa incongruência entre os desejos frente à vida e à morte? A resposta está diretamente ligada à consciência da finitude da vida.
 
Parece bobo, mas, apesar de sabermos que somos seres mortais, vivemos nossas vidas como se elas não tivessem fim. A morte eminente fica no inconsciente, até porque seria no mínimo melancólico, viver uma vida esperando pela morte. E, provavelmente, esse seria um dos motivos pelos quais nós acabamos desviando nosso foco para objetivos materiais ao longo das nossas vidas. Somos seres competitivos por instinto. Na pré-história o homem primitivo precisava competir com os outros do bando, para garantir a passagens de seus genes para as próximas gerações. A espécie evoluiu e com ela a competição também alcançou outros níveis. Competimos por poder, beleza, dinheiro... e acabamos esquecendo que muitas vezes precisamos do "bando" para nos defender do perigo. Mesmo hoje, com o perigo sendo outro, a coletividade mantém a força capaz de apoiar o todo.
 
Quando "realizamos" em nossa mente que somos mortais, e isso normalmente só acontece em episódios em que a vida é colocada em risco, em doenças terminais ou na velhice, temos a tendência de substituir nossos desejos materiais pela experimentação de emoções que gerem lembranças boas. Daí vem os arrependimentos diretamente ligados à falta de coragem, de tempo ou de autoaceitação.
 
Perto do fim os bens materiais normalmente são objetos de disputa entre os que ficam, podendo gerar ainda mais tristeza aos que estão de partida. Enquanto que as lembranças boas irão acalentar suas dores. Essas irão justificar a existência, fazer com que todo resto tenha valido a pena.
 
E você?  Você já parou para pensar se vive a vida que deseja, ou aquela que esperam de você? Talvez você nem saiba qual é a vida que você realmente deseja. Mas não se preocupe, porque se é essa sua condição atual, saiba que você pertence a uma imensa maioria, que ainda "funciona em modo automático", vivendo dia após dia na busca por sucessos e conquistas que lá no final representarão, quem sabe, um espólio digno de disputa, mas que para você já não irá significar muita coisa.
 
Eu, faço votos que nesse momento ao menos, você use esse modesto texto que acabo de  escrever para se presentear com alguns minutos de reflexão, e pense aí "com seus botões" que vida você está vivendo. A intensão aqui não é de pregar a pobreza, nem julgar a ambição como pecado absoluto, mas sim mostrar que o dinheiro e o poder não devem ser a prioridade da vida. Todos queremos viver com o conforto que o dinheiro proporciona, e isso é totalmente digno, fazendo com que entendamos que como todo resto na vida, a questão é o equilíbrio. Dinheiro é bom sim, mas na medida certa para podermos viver a vida, com tempo e satisfação. O acúmulo de riqueza a qualquer custo e sem um propósito digno é o que acaba promovendo um dos grandes arrependimentos no final da vida. 
 
Então, viva a vida e não se esqueça do amanhã por dois grandes motivos: ele pode existir e você pode se arrepender do que aconteceu hoje, ou então, ele pode não existir e você também pode se arrepender do que aconteceu hoje. A escolha será sempre sua. E acredite, isso é bom.
 
    

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