até que eu decidi...


 
 
Tomar uma decisão. Essa sempre foi uma das tarefas mais difíceis na minha vida. Ter que fazer uma escolha, sem exagero, me amedronta até hoje. E isso vai desde as escolhas mais simples, até as mais arriscadas.
 
Desde criança as escolhas me assustam. No fundo, existia uma vozinha na minha cabeça que insistia em repetir que "eu não tinha sorte", que só fazia escolhas erradas, que se existissem duas alternativas, com certeza, eu iria optar pela ruim. O tempo foi passando e cada vez mais eu me convencia que sorte não era para mim, afinal nem rifa eu ganhava (como se eu nem comprava rifa?). Cada vez que me encontrava frente a uma escolha, que eu julgava ser importante, o medo e a certeza de que eu faria besteira tomavam conta de mim.
 
Se o tempo não estivesse ensolarado, logo vinha a dúvida de levar ou não o guarda-chuva. Mas é claro que se eu não levasse iria chover torrencialmente, então, com o tempo, a sombrinha ganhou "cadeira cativa" na minha bolsa.
 
Vestir saia ou bermuda da escola? Sempre gostei de saia, mas e se tivesse vento? Mas e para subir a escada? Mas e se os meninos a levantassem? Lá vamos nós de bermuda.
 
Na época das reuniões dançantes (baladinhas infanto-juvenis onde os meninos tiravam as meninas para dançar) as duvidas sobre o que vestir, o que fazer e principalmente o que não fazer, não só me paralisaram, mas me retraíram. Me fechei em copas. Preferia ficar em casa. Se decidir era difícil, o medo de lidar com as consequências das decisões era ainda maior.
 
Beijei tarde. Fiquei tarde. Namorei tarde. Para os padrões da época, é claro. Nada por escolha própria, mas por não conseguir lidar com as decisões. E daí pra frente só piorou.
 
Que carreira escolher? Seguir a razão ou o coração? Casar ou "juntar os trapos"? Seguir a minha cabeça ou a dos outros? Ter filhos ou não? Seguir a emoção ou a ambição? Saúde ou carreira?
 
É claro que as decisões começam a ser tomadas quando abrimos os olhos pela manhã: levantar da cama ou colocar o soneca no celular? Café, suco ou nada? Ônibus, carro, bike ou a pé? e lá vamos nós até o anoitecer nessa sucessão de decisões sem fim. Muitas vezes errando, outras acertando. O caso é que nunca temos certeza de quais serão as consequências, e por isso as decisões ficam tão difíceis. Mas a vida vai ensinando, vamos ganhando "aliados" ( as vezes cumplices) na jornada, e o medo passa a ser melhor administrado.
 
Ainda fico na dúvida se peço suco de laranja ou melancia, se coloco tênis ou rasteirinha, se vou ao cinema ou espero entrar no Netflix...talvez porque eu seja libriana (faz de conta que eu acredito nisso, ok?), mas naquelas questões maiores, nas que realmente metem medo em gente de meia idade e que já tomou uma porção de porrada da vida, nessas eu tenho adquirido maior confiança em seguir o meu instinto. Parece mentira, mas como eu não preciso disso, pelo menos por enquanto, vou dizer mais uma vez: as maiores questões da vida (amor, carreira, dinheiro, felicidade) são as que tem resposta pré estabelecida dentro de nós. Só nos cabe acessar. Ok, isso pode não ser tão fácil, afinal não estamos acostumados a sermos sinceros com o espelho. Dói. Chegar aos quarenta anos e ter a certeza que seguiu a profissão errada é duro, mas fica mais fácil se você realiza que criou filhos felizes e um patrimônio que os guarde enquanto estiver em busca de seu verdadeiro talento.
 
O medo, o receio, a indecisão sempre irão existir. Graças a Deus! Sabe qual é o contrário de medo? Não é coragem, é ser destemido. Ser corajoso é incrível e te faz enfrentar os medos necessários para nossa sobrevivência, mas ser destemido pode causar nosso fim. Heróis destemidos dão a vida por seu ato, já heróis corajosos atuam preservando tanto a sua, quanto a vida alheia.
 
Então meus amigos, tenhamos coragem para abrir nossos olhos pela manhã e começar nossa tomada de decisões diária. Escolham algo para comer de manhã, deem bom dia para quem cruzar seu caminho, respeitem os sinais de trânsito, as leis, o espaço das pessoas, beijem muitos seus filhos, usem filtro solar... e nunca esqueçam que tudo isso vai passar. Seja bom ou seja ruim, vai passar. Portanto faça escolhas conscientes e não porque os outros esperam que você escolha assim. Quanto a mim, não carrego mais sombrinha, aprendi a andar na chuva.

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