A Monja, o Karnal e o Narciso
“O Inferno Somos Nós”. Esse é o nome do
livro escrito em conjunto por Leandro Karnal e Monja Coen. Jogo ganho. Deleite garantido. Na verdade minha única
crítica é que, uma obra que resulte do encontro de dois seres de tamanho
conhecimento, seja tão pequena. Não em conteúdo, mas em extensão.
São pouco mais de cem páginas. Basicamente
a transcrição de um diálogo entre os autores. Mas rica em valores e “conselhos”.
A monja mais pop de todos os tempos, fornece ali o que deveria ser adotado como
as bases da boa convivência. Tolerância, respeito, bom senso e muito bom humor.
Tudo que se apresenta em escassez no nosso convívio.
Os embates nas redes sociais agora se mostram
cada vez mais comuns nos grupos de Whatsapp. A chateação que antes se
restringia a ter que dar “bom dia’ aos inúmeros grupos e receber fotos e vídeos
que acabavam com a capacidade do smartphone, agora vem dando espaço às discussões.
Grupos da escola, da faculdade, do condomínio, dos pais dos colegas de escola dos
filhos, da troca de figurinhas do álbum da Copa, de compra e venda... Enfim, a
intolerância e o desrespeito alcançando cada vez mais canais de comunicação.
Acontece que a culpa dessas desavenças
não é do aplicativo, desenvolvido para facilitar a comunicação entre as
pessoas. “O inferno somo nós”. Nós que não aceitamos as opiniões e escolhas dos
outros. Nós que acreditamos, mesmo que em segredo, que tudo que seja diferente
do que pensamos ou fazemos é ruim. É errado.
Somos habitantes de um país rico em
diversidades. Por que esperar que todos rezem para um mesmo Deus? Para que se
incomodar se não temos os mesmos hábitos, ou crenças, alimentares? Odiar o
outro por ele não concordar com meu posicionamento político? “O inferno somos
nós.”
Tão difícil aceitar que tudo que me
gera ojeriza no outro, pode estar nascendo de mim. A intolerância nasce do medo.
Ataco para não ser atacado. Domino para não ser dominado. Me mostro forte e
firme nas minhas convicções para não ser questionado. Mas o que realmente
queremos é aceitação e admiração.
A alegria de viver a vida de acordo com
seu propósito, respeitando as ideias alheias, contenta a muito poucos seres nos
dias de hoje. Nossas postagens precisam ser curtidas e compartilhadas, senão
vem a frustação. Como atrair mais seguidores sendo despretensioso? Mas na verdade
a pergunta não seria: para quê ter seguidores?
Todo esse assunto me remete à Saramago,
em “Ensaio sobre a Cegueira”. Uma cegueira “branca” se alastrando pela
sociedade, fazendo que as pessoas “operem” em seu mecanismos mais básico de
luta e fuga. Quanto maior a “cegueira’ menor o respeito e as habilidades
sociais... É como se diante das telas de nossos smartphones, fossemos
contagiados pela tal cegueira branca, e nos sentíssemos no direito de passar
por cima das convicções alheias.
Somos encorajados pelo falso
enfrentamento que as redes sociais nos fornecem. Dificilmente encaramos discussões
ou proferimos críticas na presença física do “oponente”. A cegueira de Saramago
promove um apagão no nosso córtex pré-frontal e nos torna Neandertais. E qual o
sentido disso? Aceitação? Não seria mais prudente buscar a paz do que
admiração? Mas será que sabemos o que realmente buscamos ou só queremos ganhar
a luta? Nada mais resta a ser dito além de que: “o infernos somos nós”.
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