Ninguém quer a sua opinião, só sua conivência.
Desculpe
começar assim, mas eu, você, e qualquer um que você conheça busca por
aceitação. Isso não é necessariamente ruim nem bom. Mas esse “modo operante” se
intensificou ainda mais em tempos de redes sociais. A maioria das postagens são
feitas mostrando momentos felizes, viagens, comemorações... e isso é
absolutamente normal. Somos seres sociais, e, portanto, buscamos a admiração
dos outros, na intensão de nos destacarmos no grupo.
Que atire a
primeira pedra quem nunca desejou a amizade do grupinho mais popular da escola,
ou, até mesmo ficar invisível, quando aquela criatura “reclamona” se aproximava
para contar de sua mais nova dor ou desgraça. Buscamos holofotes e fugimos das
sombras. E isso não está certo?
Sim e não
(como diria um dos meus primeiros mentores na vida). Sim, porque ninguém deseja viver deprimido ou fracassando. E não, porque a vida não é feita somente
de alegrias, graças à Deus! Graças à Deus sim! Sabe por que? Porque se tudo que
nos acontecesse fosse bom, não estaríamos nunca satisfeitos, pois para ser feliz
é preciso conhecer a tristeza.
O fato é que a
vida é feita de acontecimentos bons e ruins. Às vezes estamos bem, outras nem
tanto. Crianças adoecem e morrem, idoso são maltratados por aqueles a quem
dedicaram suas vidas, animais são torturados por “diversão”, cerca de 35% da
população mundial passa fome... e eu não estou querendo dizer que você precisa
ficar deprimido por isso. Basta estar ciente que a sombra existe, e agradecer se,
nesse momento, você não está vivendo nela. A consciência da dor do outro é
necessária, assim como a gratidão pelas bênçãos é imprescindível.
Mas por que,
mesmo com nossas rotinas alucinantes, ainda arrumamos tempo para nos preocupar
com a opinião alheia. E eu nem estou me referindo à opinião das pessoas mais
próximas à nós, mas daquelas que mal conhecemos. Ou vai me dizer que quando
você “briga” por uma promoção, ou compra uma roupa caríssima, você só está
pensando na satisfação que aquele ato irá lhe trazer? Nunca passou pela sua
cabeça o quanto você seria invejado pelos colegas de trabalho se alcançasse determinado
cargo, ou o quanto as pessoas iriam invejar seu traje requintado? Caso sua
resposta seja: “não isso nunca me passou pela cabeça, porque eu só quero me
sentir satisfeito com isso”, preciso te dizer que quem está te invejando nesse
momento sou eu. Porque eu preciso confessar que me visto pensando na mensagem
que aquela roupa vai passar para quem me enxergar, e até falo coisas que acredito
ter maior aceitação do que aquilo que eu realmente penso.
Me desculpe se
choquei alguém, mas eu realmente duvido que muitas (senão a maioria) das pessoas
“atuem” na vida da mesma forma que eu. Atuamos nesse grande teatro chamado
vida, buscando não sermos chamados de estranhos, ou repelir (ao invés de
atrair) os outros. Somos criados assim, não somente pelos nossos pais, mas por
uma ordem social que busca por admiração e esconde seus fracassos e tristezas.
Mas fracassar faz parte e ficar triste é natural.
Quantas vezes
um amigo lhe pediu opinião sobre alguma encruzilhada na vida, e tomou o caminho
contrário que você indicou? É claro que ninguém é obrigado a seguir nossas
indicações, mas vai dizer que você nunca percebeu que aquele pedido de conselho
não estava, na verdade, travestindo numa solicitação por conivência? A pessoa
sabe que não deve continuar num relacionamento falido, ou num emprego ruim, mas
quando você diz para ela sair daquela situação, ela te “desfia um rosário” de
motivos do porquê continuar assim. Sabe por que? Porque ela nunca quis saber o
que você pensa, mas sim obter uma justificativa para não ter que tomar coragem
de agir. Se você descorda ela te “convence” que tem motivos para estar assim.
Se você concorda, ela se sente aliviada por não ter que mudar. E, quando eu
digo “ela”, na verdade eu estou me referindo a todos nós.
Pedimos a
opinião dos outros, mas só queremos ter nossas atitudes corroboradas. E esse é
mais um dos motivos pelos quais psicólogos não dão (ou não deveriam dar)
opinião sobre as questões dos pacientes, mas sim os levar a pensarem melhor
sobre eles. Só nós mesmos somos capazes de tomar, ou não, as atitudes que
direcionam nossas vidas.
Existem
situações em que estamos errados, ou que não temos capacidade para realizar
algo, ao invés de reconhecer nossa limitação, realizamos uma espécie de
reconfiguração das evidências. Esse fenômeno de negação é explicado pela teoria
da dissonância cognitiva, que emerge da necessidade do indivíduo de evidenciar
a coerência entre seus atos e suas consequências. Sabe quando o cara chama a
menina para sair, ela recusa e então o cara passa a difamá-la para os outros? Ou
a raposa que por não alcançar as uvas na parreira passa a dizer que nem queria
comê-las, pois devem estar azedas? Pois é, usamos essa estratégia mental a todo
momento. Negamos, fugimos e buscamos justificativas para nossos atos.
Assim, ao
invés de gastar o tempo dos outros, e o nosso mesmo, pedindo opinião, seria
mais honesto (e pouparia energia) fazer aquilo que nossos avós já diziam: “coloca
a mão na consciência”. Na verdade, eles nos aconselhavam, mas como todo
conselho alheio, dificilmente a gente seguia. Até porque, “se conselho fosse bom
a gente não dava, vendia”, não é mesmo? Eu não tenho certeza disso, mas de
qualquer forma, prefiro acreditar que “cada um sabe onde lhe aperta o sapato”.
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